6 passos para transformar a cultura do vinho no Brasil

Mesmo com a crise, o brasileiro está consumindo mais vinho. E não estou falando isso porque sou otimista ou porque amo vinhos; essa é uma constatação, tanto da IBRAVIN como dos dados apresentados pelo Brazil Landscapes Report 2017.  Se em termos de valor o mercado apresentou queda, em termos de volume de vendas, subiu. O número de consumidores de vinho manteve-se em crescimento, apesar de todo o cenário desestimulante.

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Adaptado do Brazil Landscapes Report 2017

Para um país de clima quente como o nosso, onde a cervejinha do final de semana é a garantia da felicidade, os dados são animadores! Isso mostra que, mesmo em meio à crise, os consumidores de vinho não deixaram de beber vinho, apenas reduziram padrão de custo.

Porém, é preciso destacar uma informação MUITO importante, e, por isso, assunto deste post: o consumo de maior volume (disparado!) de vinhos no Brasil ainda é o de vinhos produzidos com uvas NÃO-VINÍFERAS.

Uvas Não-Viníferas (ou Uvas de Mesa) são uvas utilizadas para a produção do Vinho de Mesa, o famoso vinho de “garrafão”. São uvas americanas, dessas uvas que estamos acostumados e comprar em feiras e mercados: Uvas Isabel, Concord, Niágara.

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Revista ADEGA, fevereiro 2016.

Essa informação costuma nos confundir, porque se analisarmos o todo, o universo dos vinhos em geral (vinhos finos + vinhos de mesa), iremos observar que o consumo de produtos importados é de 25%. Ou seja: a maioria do vinho consumido é Nacional, só que com uvas Não-Viníferas!

Em um resumo grosseiro, podemos então afirmar que o brasileiro ama vinhos sim! O que falta é a cultura do Vinho Fino.

E como estimular a cultura de um produto que muitas vezes vai contra o paladar doce do brasileiro?

O movimento que ocorre no Brasil hoje é de queda na produção de Vinhos de Mesa e aumento de Vinhos Finos. Isso significa que alguns brasileiros estão deixando o bom e velho garrafão de lado e partindo para novas experiências.

Mesmo com toda a crise econômica? Sim, mesmo.

A onda crescente da produção das Cervejas Artesanais já indicava essa tendência. O brasileiro está compreendendo o real significado de “beber menos, mas beber melhor” e fazendo aos poucos uma sutil substituição.

Então, na minha humilde opinião, alguns dos fatores que vão contribuir para essa “transição” do paladar do brasileiro, são os seguintes:

1 – Enoturismo – Dificilmente alguém que realiza um tour por vinícolas do Sul do Brasil, que faz um passeio à Argentina ou Chile, voltará tomando somente vinhos suaves, vinhos de mesa. Pode ser que o hábito não se instaure tão rapidamente, mas a descoberta de aromas e de que paladar é algo que se treina, estimula o consumo de novas experiências.

As visitas permitem não só perceber como a produção de vinhos finos é trabalhosa e minuciosa, mas também como muitas pessoas admiram o resultado desse processo. É um bom passo para começar a desconfiar do próprio paladar.

 

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Larentis – Após provar toda a carta, saí feliz com muitas garrafas!

2 – Eventos de estímulo, mostra de vinhos e degustações com parcerias voltadas ao consumidor final – Em eventos, assim como em viagens, o consumidor entra em uma espécie de encanto. Ele está tendo a chance de degustar, de experimentar…vejam bem: ele não está em um bar, pagando por uma taça ou uma garrafa e se arrependendo: ele está livre para o consumo e suas descobertas. Tudo isso influencia! O consumidor se sente praticamente um privilegiado, por estar ali, tendo a chance de conhecer e provar. Sem contar as conversas com produtores, convidados e visitantes, que sempre geram mais aprendizados.

Provas de vinhos, como as realizadas pela Serrado Vinhos e a Cave Nacional aqui no Rio, têm garantido essa experiência a um público novo, que começa a conhecer as benesses do vinho agora.

Eventos como o Circuito do Vinho e o Coisa Nossa Vinho e etc são iniciativas diferentes, mas que também visam incentivar a difusão da cultura do vinho. O primeiro, por superar as fronteiras da zonas mais privilegiadas da cidade e levar o vinho à Zona Norte, democratizando o consumo por meio de taças e oferecendo palestras gratuitas. E  o Coisa Nossa Vinhos e etc, por abrir o leque da Enogastronomia, apresentando o que há de melhor em termos de Vinhos Finos Nacionais e harmonizações, sem contar as “Master Classes” espetaculares.

Degustações e eventos servem como oportunidade para uma expansão do paladar que, no final das contas, resulta em uma expansão de mercado.

O simpático e muito atencioso casal da Edouro – no Circuito do Vinho. E essa Tijucana que vos escreve, marcando presença na degustação da Serrado Vinhos.

3 – Ampliação da linha de vinhos de entrada dos produtores a um bom custo-benefício – O iniciante nos vinhos finos não deveria ter um bolso sofisticado para sofisticar o seu paladar, uma vez que não é assim em culturas mais enófilas que a nossa. O brasileiro sente falta de um bom vinho, com preço mais acessível. Não adianta divulgar, promover eventos, degustações, sem bons preços para o consumidor final. É claro que isso afeta mais as vendas do pequeno produtor e das produções nacionais, pois na medida em que estimulamos o consumo interno e não oferecemos um bom custo-benefício, as portas ficam abertas para vinhos mais baratos de larga escala, como algumas marcas importadas do Chile e da Argentina.

4 – União entre todos os personagens da cadeia (produtores, distribuidores, revendedores e, até mesmo consumidores) para cobrar do governo uma redução dos impostos. A informação de que, em uma garrafa de vinho, 70% é dado nas mãos do governo, não deveria ser só de quem conhece e estuda o mundo dos vinhos, mas de toda a população.

Não vejo outro modo de alcançar a comoção e o engajamento popular, que não seja por meio de campanhas de conscientização. Digo isso porque sei que existe toda uma força social – a qual eu considero corretíssima – de advertir principalmente os jovens quanto ao uso indiscriminado de bebidas alcoólicas. A questão é que o vinho, assim como outras bebida alcoólicas, não pode ser reduzido a esse único aspecto. Desculpa, mas não pode. Vinho tem história, faz parte de diversas culturas, bem consumido é até mesmo saudável. Resumi-lo a um aspecto seria como dizer que esporte faz mal porque as pessoas se machucam.

Não é assim no resto do mundo. Vinho é vinho. E nós precisamos da cultura do vinho, pois ela é a cabeça de uma cadeia que envolve além de empregos diretos, os indiretos – com reflexos nas áreas afins como: turismo, gastronomia, educação. Umas das razões que me levou a criação deste blog foi essa, a de levar a mensagem do vinho para todos.

Recomendo, como forma de complemento a esse post, o vídeo de entrevista do fundador da Mistral, Ciro Lilla, de 2016.

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Basta clicar na imagem para asistir o vídeo pelo Youtube

Esse vídeo é ótimo! Ciro conta que precisou fazer propostas à grandes vinícolas, como a Catena Zapata e a Lapostolle, na intenção de que elas produzissem vinhos a preços mais acessíveis aos bolsos do brasileiro. São vinhos com uma qualidade boa, que são tomados pelo consumidor como de confiança (devido ao peso do nome da vinícola) e feitos especialmente para atender a demanda por vinhos com bom custo-benefício no Brasil (item 3).

Outro ponto maravilhoso da entrevista é quando ele toca justamente no ponto dos impostos e da burocracia, onde, segundo ele, só quem ganha dinheiro fácil com o vinho é o governo. E eu acredito.

5 – Parceria com programas de televisão e mídias sociais – embora a internet já seja hoje o veículo no qual o brasileiro passa a maior parte do seu tempo, a televisão da massa e programas como os de culinária, possuem um fortíssimo apelo, pois os espectadores não são somente fiéis, mas são defensores da marca e compartilham em suas redes sociais milhares de hashtags e comentários – ao mesmo tempo em que assistem o programa.

Exemplo disso foi a aparição dos vinhos nacionais no programa MasterChef. Eu mesma costumo dizer que programas como esse não têm espectadores, tem fãs. O compartilhamento é espontâneo, o que gera mais autoridade ainda para os vinhos exibidos.

Eu mesma, em um recente programa do Claude Troisgros, fiquei feliz ao ver que ele estava tomando e saboreando um vinho que eu acabara de tomar também!

É bobeira minha? É. Mas é assim que funciona a mente do consumidor.

6 – Estímulo à presença de Sommeliers em bares e mercados – prática adotada por exemplo pela rede Hortifruti e pelo mercado Prix, na qual o consumidor pode se informar sobre aspectos do vinho, e, com isso, aumentar as chances de se sentir satisfeito com uma boa compra.

Existem alguns casos, em que a casa não possui um Sommelier próprio, mas dedica um tempo treinando seu pessoal para uma melhor demonstração e sugestão de produtos. Tive essa experiência em um restaurante aqui do Rio, onde perguntei se eles tinham sommelier na casa e me disseram que não, mas que recebiam treinamento.

É uma opção. E, por favor, não: empurrar o vinho para o Cliente com o intuito de ganhar uma comissão NÃO É UMA OPÇÃO. Nesse caso, eles não fizeram isso, muito pelo contrário, tive um imenso prazer em ouvir a sugestão do garçom, que, aliás, foi ótima!


Como podemos ver, não faltam possibilidades para que a cultura dos Vinhos Finos, produzidos a partir das uvas Viníferas, se supere. Com isso, não desejo que o antigo hábito familiar dos garrafões, dos vinhos compartilhados em caneca, desapareça. Longe de mim! Até porque, em minha juventude, era muito gostoso tomar uma caneca de vinho com meus amigos. Comecei assim e acredito que muita gente também! O que eu acredito é na transformação e no desenvolvimento do paladar. E acredito, claro, na Vitivinicultura nacional, que cada vez mais vem se mostrando capaz de competir com mercados externos.

E você, o que acha que poderia ser feito para estimular a cultura do vinho em nosso país? Vamos bater um papo? Me mande um e-mail: joana@joanarangel.com

Bjs!

 

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