Curso básico de vinhos: como foi cada aula – eu conto aqui!

Eu já escrevi aqui se vale a pena ou não fazer um curso de vinhos. Mas para ser mais detalhista, já que, assim como eu, outras pessoas devem ter dúvida (já que é um valor caro), resolvi fazer um post com o programa completo do curso e como ele se desenvolve.

O meu contato foi feito pela internet, pelo site da ABS. Fiz uma transferência do valor e enviei um formulário preenchido com o comprovante. Matricula feita, hora de começar a estudar.

No primeiro dia você recebe um Kit, contendo:

  • O livro “Tradição, conhecimento e prática dos Vinhos” de Danio Braga e Célio Alzer. Celio Alzer, além de ter publicado alguns livros sobre vinhos, é um dos professores do curso e criador do Jogo do Vinho. O corpo docente é bem fera;
  • Um programa com as aulas que serão ministradas e os vinhos que serão degustados em cada aula (Rá!) – essa parte é muito boa;
  • Um CD (?) com os slides que serão apresentados durante todo o curso. Que eu preferia ter recebido via e-mail, mas tudo bem;
  • Um bloco de anotações, pastinha e caneta promocional da ABS;
  • Uma lista de restaurantes e lojas conveniadas com a ABS – porque quem é aluno se torna associado, então pode aproveitar os descontos e promoções;
  • A carteirinha da ABS – que comprova que você é associado.
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Quero meu desconto!

PROGRAMA DO CURSO E ROTEIRO DAS AULAS

Aula 1 – Origem da videira, história da uva pelo mundo, técnicas vinícolas, clima e solo, inimigos da videira, principais castas, vinho e saúde.

Aula ministrada pelo professor Ricardo Farias.

Excelente professor, ultra simpático! Aliás, essa é uma qualidade que notei em todo o corpo da ABS.

Eu optei por ir acompanhando as aulas com o livro, pois gosto de fazer marcações, destacar textos, etc. Foram abordados os capítulos 1, 2 e 3.

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Meu livro todo marcado

Como podem perceber, é um conteúdo bem técnico, mas nada cansativo. É para quem gosta mesmo desse universo.

Foi nessa aula que aprendi sobre algo que eu NUNCA tinha ouvido falar, nem em nehuma visita às vinícolas que fiz. Vou contar aqui porque dou spoiler sim, sou dessas: aprendi sobre a FILOXERA.

A Filoxera foi uma praga que devastou os vinhedos pelo mundo no século XIX, especialmente na Europa. Com a contaminação dos vinhedos, toda a vitivinicultura mundial foi transformada. Existe um “antes e depois” da Filoxera.

Essa praga passou da América para a França por meio de videiras contaminadas que foram importadas. Ela é tipo um pulgão que suga a planta até a morte. O que aconteceu foi que as videiras americanas desenvolveram uma resistência à praga e as europeias não. Então, após milhares de tentativas para a cura dessa praga safada, a solução encontrada foi fazer enxerto de videiras europeias no tronco das videiras americanas.

Imaginem assim: ela cresce americana (que apesar de não se contaminar, não tem uma uva boa para vinhos) e conforme vai sendo enxertada a videira europeia, ela vai crescendo e ficando meio que duas. Embaixo americana (próxima do solo, onde não se contamina) e na parte de cima europeia – que dá as uvas maravilhosas para a gente fazer vinho.

Encontrei essa imagem ótima na página http://vevebraganca.com.br/wp-content/uploads/2013/06/enxertia.jpg!

Imagem que representa o enxerto. Retirado de: https://i1.wp.com/vevebraganca.com.br/wp-content/uploads/2013/06/enxertia.jpg
Imagem que representa o enxerto.

Mais fácil entender assim, né?

Isso representa que nossos vinhedos, os vinhedos europeus, os vinhedos argentinos, ou seja:  quase tudo que se tem por aí hoje é vinhedo enxertado! Siiiimmmmm!!! Com exceção do Chile que, pasmem, a Filoxera nunca se criou por lá e o país possui os chamados Francos (um vinho Franco é um vinho sem enxerto). Uns atribuem essa sorte às condições exepcionais de clima, solo, as cordilheiras…mas nunca se soube ao certo o porquê.

Saí da primeira aula fascinada. É muito bom aprender!

Na aula 1 degustamos um Bourgogne Blanc 2014 – Joseph Drouhin

bourgogne-blanc

Aula 2 – Aula sobre os processos da vindima, de vinificação em branco, tinto e elaborações especiais: rosados, vinhos do Porto, Jerez e Madeira.

Como é uma aula que fala de processos, me agradou bastante. Ser engenheira nessas horas faz a gente ver uma graça onde quase ninguém mais vê. O professor foi o mesmo da aula 1 e apresentou os processos de:

Plantio >> Colheita >> Pesagem e Medição >> Recepção e Cantina >>  Desengaçamento e Prensagem >> Fermentação

Acompanhando pelo livro, foram desenvolvidos os capítulos 3, 4, 5, 6 e 7.

Foi dada muita ênfase no processo de Fermentação, por ser a parte mágica. Não posso dizer que o processo de Fermentação é o pulo do gato ou o grande lance da produção do vinho, porque para se ter um vinho bom é necessário que as condições sejam boas DESDE O PLANTIO. Desde o trabalho do solo para receber a videira. E isso é  o que apaixona no vinho.

Aula 2 do professor Ricardo Farias
Aula 2 do professor Ricardo Farias

Nesta aula degustamos um Colomé Torrontés 2015 e um Villa Montes Cabernet Sauvignon 2012

colome2015

 

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A serenidade no olhar de quem está adorando a aula

Aula 3 – Acho que essa é a aula que as pessoas mais gostam. Senti a turma mais empolgada, mais borbulhante (hehe). O professor Celio Alzer falou sobre os processos de Espumatização: elaboração do Champagne e outros espumantes.

Realmente, pensar no Champagne, na história envolvida e em tudo que essa bebida – que é quase considerada uma jóia – representa no mundo…é algo encantador. No livro, esse assunto é tratado no capítulo 10.

O que mais me chamou a atenção nessa aula não foram nem os processos aprendidos, mas a evidência de mulheres à frente das grandes indústrias do Champagne. São as chamadas Viúvas do Champagne. Fiquei tão apaixonada que comecei a ler o livro da Viúva Clicquot, uma biografia sobre como uma mulher viúva naquela época (séc. XVIII) – ela então com 27 anos, conseguiu erguer um império do luxo. Falarei dele em outro post.

O que também AMEI durante a aula foram as referências históricas a Napoleão e Churchill, dois estadistas fissurados por Champagne. Nessa matéria da Veja tem frases ótimas do Churchill.

Além disso, foi bem legal perceber que nem todos os alunos tinham noção de como os nossos espumantes são bons e consagrados mundialmente. Nem todos conheciam a força do espumante nacional. A verdade é que não podemos fazer Champagne, porque só os da região da Champagne podem assim chamar….mas nossos espumantes estão despontando e ganhando prêmios mundo à fora! E que bom que a turma gostou de saber! Se já somos capazes disso com pouco incentivo, imagina com muito, tipo como é na França!

Na aula 3 degustamos o Chandon Reserve Brut.

Nossa cara de phyna na degustação do espumante
Nossa cara de phyna na degustação do espumante

Aula 4 – Toda a parte de amadurecimento e envelhecimento dos vinhos é vista na segunda aula com o professor Célio, a quarta aula do curso. Ele é muito bom!

Eu e Donana não resistimos a tietagem e não só compramos o livro “O Passo a Passo da Degustação” como também pegamos autógrafo do professor. É, a gente faz essas coisas mesmo.

Tietando o professor Celio Alzer
Tietando o professor Célio Alzer

Nessa aula também são descritos alguns processos de operações em cantina que fazem com que os vinhos fiquem mais agradáveis, como o processo de passar pela madeira, por barricas. Um vinho que passa por barrica é um vinho que ganha mais estrutura, mais corpo. Só que tudo isso tem um preço e não é barato. Essa questão do custo das barricas também foi visto em sala.

Existem alternativas que podem ser empregadas na produção para que o vinho apresente notas de madeira (mesmo sem nunca ter passado por uma). Esse assunto é abordado na página 81 do livro e refere-se ao uso dos chamados “chips, dominós ou staves (ripas)”. Ainda polêmica,  a técnica é autorizada no Brasil e em países do Novo Mundo, mas não é permitida na Europa. O professor levou uma amostra de chips, para facilitar a compreensão. Obviamente, todos cheiraram o chips rs.

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Chips

O vinho degustado nessa aula maravilhosa foi um Casa Silva Carmenere Reserva Cuvée 2014.

Gosto bastante dessa vinícola, e, como eu escrevi acima, a Carmenere é uma uva de vinhedos francos ou seja: sem enxerto, já que nunca foi atingida pela Filoxera. Mas o que isso muda? Nada. Escrevi só para reforçar mesmo.

casasilva

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Ahhhh o Chile!!!

Aula 5 – A quinta aula foi ministrada pelo professor Edgard Kawasaki e foi toda sobre as análises sensoriais do vinho: visual, olfativa, gustativa, táteis e outros aspectos. Foi bem aquela aula de ficar olhando, cheirando e analisando mesmo. Essa aula é uma espécie de introdução ao módulo seguinte do curso – que quero fazer! – que é o de Degustação.

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Foi uma cheiração só

Essa aula foi ótima e vai nos ajudar muito na Confraria, porque em nosso primeiro encontro ficamos tensos na hora de preencher o formulário de avaliação. Claro! Para tudo na vida existe técnica, gente. E estudar é preciso. Estudar e praticar. Natural que a gente não tivesse entendido patavinas do formulário, mas estamos aqui para isso e vamos que vamos!

Nessa aula degustamos 3 vinhos! Oh yeah, 3 vinhos!

1 – Penedo Borges Reserva Chardonnay 2015;

2 – Miolo Reserva Merlot 2014;

3 – Syrah Reserve Expressión – Villard 2014.

Confesso que o Miolo me surpreendeu. Um vinho que nunca compro no mercado porque sempre dou azar. Quando estive na Miolo e degustei os vinhos deles, achei ótimo. O frescor da vinícola, a experiência do momento…são fatores que influenciam. Acredito também que o vinho da ABS tenha sido transportado em perfeitas condições, tenha sido armazenado adequadamente…tudo isso conta e muito! Vinho não pode sacudir, não pode ficar nem no calor e nem no frio intenso. Tem que cuidar direitinho e a verdade é que os mercados não cuidam!

Esse Syrah: ou eu não estou preparada para ele ou pelo amor de deus…odiei. O aroma era de citronela, dessas que a gente usa para dar cheiro no banheiro. O sabor…nossa…nem um pouco o meu estilo. Valeu, claro, como sempre a experiência!

Não há outra saída para aprender sobre vinhos: experimentar, experimentar e experimentar. Toda galera pica das galáxias fala isso.

Acompanhei a aula pelos capítulos 8 e 9 do livro.

Aula 6 – Essa aula foi com o professor Euclides Penedo Borges. Coloquei o sobrenome dele para que seja possível uma associação. Sim, é o do vinho, rá! Legal, né? Eu achei. Degustar o vinho dele com ele ali, outra experiência! Ele também tem um livro sobre Harmonização que quero comprar. A aula foi exatamente sobre isso: o casamento entre comida e vinho. Harmonizar significa isso: casar. Segundo ele “restaurante significa restaurar a energia e a matéria do nosso corpo”. Se eu concordo com ele? Claaaaaro! Amo mesa, amo restaurante, amo comer!

Achei a aula bem técnica. Mais do que imaginava. Muitos alunos, inclusive eu, aproveitaram para tirar dúvidas sobre pratos que combinam com o quê, dúvidas sobre o que servir, etc. Os capítulos 12, 13, 14, 18 e 20 do livro tratam deste assunto.

Prof. Euclides
Prof. Euclides

Nessa aula foram passados princípios básicos da harmonização e alguns “inimigos do vinho”. Pois é, existem alguns alimentos que não combinam bem com vinho. Não significa que não tenha nesse mundo alguém que goste ou que discorde dessas “regrinhas”. Essas “regrinhas” são argumentos que indicam quando um alimento irá se sobrepor ao vinho ou vice-versa. E é um casamento, lembra? Tem que haver harmonia, integração. Então, por exemplo, o limão. Limão é ácido, vinho é ácido – não combina, não se complementam. Pickles, mesma coisa. E por aí vai. Tem uma lista de itens e é muito interessante perceber o que cada um acha. Eu já tomei um Sauvignon Blanc com feijoada e tô aqui viva para contar pra vocês. E posso dizer: tava bem bom.

Vinho é assim: são muitas variantes variáveis.

Foram degustados um Chardonnay Estate Reserva De Martino 2014 e um Penedo Borges Cabernet Sauvignon Clássico 2014.

Aula 7 – A aula 7 foi maravilhosa!!! É a última aula do curso e nela é entregue o Certificado de Conclusão. É uma aula de Serviços. O que significa isso? Significa que você vai aprender a diferença entre Aeração e Decantação, a abrir um espumante, a saber qual taça é a certa e para o quê, a diferenciar os tipos de abridor e outras coisas.

O professor é o Marcos Lima  é fera no que faz! Ele abre um espumante sem fazer um ruído com a rolha, sem estourar!

Ahhhhh você não sabia que esse era o certo, né?

Quanto mais barulho faz, mais pressão, significa que o gás carbônico está saindo! E o que nós queremos em um espumante é o que? Gás carbônico, ou seja: bolinhas!!!! Siiiimmmm!!

Pois é, sabe aquele seu amigo que se acha o rei do camarote porque explode o espumante e sai molhando tudo, se sentindo na Fórmula 1? Ele está fazendo tudo errado! Daí você tem duas opções: avisar a ele e ser legal ou rir discretamente.

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Prof. Marcos Lima explicando como se decanta um vinho
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Abridor Screwpull

Também achei muito prático o abridor Screwpull.  É sim, um aparato esquisito, parecendo uma arma, super deselegante e blá, blá, blá….mas sinceramente, o vinho abre em segundos e de uma forma muito, muito fácil. Não vejo necessidade de correr risco de dar algum problema, só para “manter a elegância” de um abridor tradicional. Pensa em um evento, dezenas e dezenas de garrafas sendo abertas. Pena que ele custe tão caro!

No final da aula são servidos um acepipes para serem harmonizados com o vinho – o último a ser degustado no curso.

O vinho degustado foi um Trapiche Melodias 2013.

Estava ótimo! Um Malbec de cor maravilhosa, um aroma leve de baunilha (deve ter passado por barricas, pois quando sentimos a baunilha é que geralmente passou) e ameixa preta. Um excelente vinho para acompanhar uma pizza ou uma massa leve, já que os taninos são bem macios. Adorei!

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Trapiche Melodias – degustado na última aula

E aqui, eu e Donana, as duas devidamente “certificadas”!

Muito bom estudar um hobby! Muito bom se dedicar ao que se ama!

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Certificados! Etapa 1  – concluída!!!

Então?!

Espero que tenha servido de inspiração para que você ou faça um curso ou indique para alguém. Precisamos de amantes de vinhos! Precisamos que a cultura do vinho se espalhe! Chame um amigo e se matricule em um bom curso. Te garanto que seus almoços nunca mais serão os mesmos!

divina-assinatura

4 comentários

  1. Top esse curso heim? Se eu tivesse tempo e dinheiro super faria…
    Interessante o tema sobre a filoxera. Dizem que a uva Malbec é originariamente francesa mas por causa da filoxera milhares de hectares de Malbec foram exterminados da França. Mas conseguiram salvar um pouco e trouxeram pra Argentina… daí como or argentinos tem mania de se apropriarem de tudo (haha – serio. Eles dizem que o nosso pão de queijo foi inventado aqui e o chama de “Chipa” haha) eles dizem que a uva Malbec é e sempre foi Argentina…. aiai… esses hermanos…kkk
    Agora, 6 meses só de validade da carteirinha??? Fala serio!!! Muito pouco!! Tem que fazer valere todo dia ir em algum lugar pra usar o desconto!!kkk

    • Sim, a Malbec foi levada para aí e eles conseguiram extrair o melhor da uva! Mas não é daí não! rsrsrrs E o pão de queijo, me desculpem, mas é MINEEEIROOOOOO kkkkk Os cursos da ABS aqui, são os mais em conta. Tem escolas mais aplicadas, com mais conetúdo, digamos assim. Só que com preços, ui…não me pertencem! E com relação ao vinho, aprender, basta dedicação mesmo. Leitura e claro: experimentar, experimentar e experimentar!! 🙂

  2. Muito bom, Joana!
    A forma como você descreveu o curso foi bem instigante. Amei!
    Realmente esse abridor Screwpull é sensacional. Permite que o vinho seja aberto de forma super simples e sutil Para nós, mulheres, isso é ótimo. Sempre tenho dificuldade de abrir um vinho com um saca rolhas tradicional.
    Bjs

    • Que bom que curtiu, Meri! Quem sabe vc se anima e faz?! Eu tenho aqui em casa um saca rolhas muuuito, mas muuuito fácil de abrir QUALQUER vinho que comprei no Extra supermercados. Ele é muito prático e foi super barato. Acho que vou fazer até um vídeo mostrando como funciona, vc me deu uma boa ideia! Não falha nunca!!!!

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